Comuna Jovem

Porque Pastores se Matam ?

Solto a voz nas estradas 
Já não quero parar 
Meu caminho é de Pedra 
Como posso Sonhar ?
Sonho feito de brisa
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto 
Vou querer me matar 

( Milton Nascimento/ Fernando Brant )

Já tem um monte de gente perguntando, debatendo e conversando a respeito, mas essa manhã , lidando com minha agenda pastoral e suas infindáveis, enormes demandas bio-psiquicas-espirituais , a pergunta retornou . E não fugi da mesma. Encarei. 

Pastores se matam porque pensam que são Deus. Podem resolver tudo. Quando acordam desse desvario, quando a fatura chega , não tem tem como bancar. Já brinquei de ( ser ) Deus. Brinco mais não. Sai fora. Literalmente, não tem graça ! 

Pastores se matam porque são pessoas boas. Só pessoas boas ficam deprimidas. Pastores-lobos ficam cínicos. São discípulos de Hofni e Finéias. Usam as pessoas. Gente se deprime. Psicopatas , empatia zero , deprimem / destroem os outros. 

Pastores se matam quando vestem máscaras de santidade. Não brigam com a mulher. Tem filhos perfeitos. Nunca pecam. Oram muitas horas por dia. Retornam, respondem no mesmo dia um número infindável de ligações e esvaziam sua caixa de entrada de emails antes das 18h. Ah, jamais deixam acontecer o absurdo de uma mensagem de whatsapp ficar mais de 1h sem resposta. Imagina !

Pastores se matam porque não conseguem dizer não . O que vão dizer deles ? Estão ali pra servir. São pagos para atender a todos o tempo todo. “Ovelha é um bicho carente, não sabe se cuidar “, eles argumentam. E vai que se engracem para outro rebanho, outro redil ? “ Pastor tem de ter cheiro de ovelha”. E quem disse que o cheiro é bom ? Onde já se viu feridas purulentas do pecado cheirar a alfazema? 

Pastores se matam porque querem concorrer com o consumismo religioso. Pregam o Evangelho, enquanto os Outros, os Lobos, pregam autoajuda espiritualizada. Proclamam as Escrituras enquanto os Lobos vendem prosperidade. É uma luta desleal. Lutar ingenuamente essa luta é uma máquina de moer carne. 

Pastores se matam porque não podem trocar de carro sem ouvir piadinhas egoístas. Se compram casa - em geral, financiada a perder de vista , “ estão enriquecendo mesmo à custa das pobres ovelhas”. Ouvi uma vez : “ Você chegou em São Paulo com uma mão na frente e outra atrás ! “ O que dizer ? Um frase de tamanha mesquinharia merece réplica ? Tô com preguiça. Serio. 

Pastores se matam porque não cuidam do corpo , não brincam. Devem dormir de paletó, não é possível. “ Nosso descanso não é nesse mundo “, escutei um deles. Querem ser maiores que o seu Senhor, contrariando a admoestação biblica. Jesus dormiu , cochilou de cansado. Se bobear, pastores não dormem nem à noite…

Pastores se matam de raiva, de tristeza, de crise vocacional, de frustração, de pobreza , de baixa autoestima, de falta de sexo, de decepção, de abandono, de tanto trabalhar, de falta de férias decentes, de cobranças injustas, de tanto se cobrar por não saber tudo , ser bom em tudo - pregar como Agostinho, Spurgeon e Bily Graham, Tim Keller, visitar como um psicólogo ou médico da família , administrar como um CEO, pensar como um filósofo , ensinar como um PHD, ser pai como um guru familiar. Já pensou ? Um profissional assim ( sem falar que não podem ser profissionais - até porque não podem cobrar como um ) merece que salário? Pastores se matam aos poucos. E aos montes. Quietos no seu abandono, na sua tristeza de não ser que os outros acham que são - ou querem que sejam , santos impecáveis. 

Pastores se matam porque adoecem. Como qualquer outro ser humano - que, se não se tratar, entra em colapso . Stress é o " pecado que jaz à porta " do pastor. Pecados sexuais idem. Orgulho então... O pastor, como os profissionais da saúde , os policiais e outras carreiras de risco , deveriam ser cuidados e não apenas cuidar. Quem cuida de quem cuida, como pergunta uma amiga terapeuta , Roseli Kunhrich ? Quem cuida do seu pastor ?

Pastores se matam porque passam a ler a Bíblia só para fazer sermões , porque desconhecem o Ócio Santo e Criativo, por que não ouvem música , não namoram, não dançam , depois de um " vinho com a mulher da sua mocidade " ( Pv 5.18 ). Nem lêem João Crisóstomo, Richard Baxter, Eugene Peterson , Osmar Ludovico, Ricardo Barbosa, verdadeiros pastores de pastores ! 

Sou pastor. Não vou me matar. Não posso morrer pelos pecados dos outros. Nem pelos meus ! Jesus já fez isso . Aliás , o Pastor mesmo é Ele . O Bom Pastor. Eu? No máximo , como diria Fernando Pessoa, sou “ um guardador de rebanhos”. Pecador. Isso só é olhe lá . Se você é um pastor de verdade , " companheiro dos outros no sofrimento" ( Ap 1.8 ), fique esperto. Não se mate por nada. Nem por tudo. Morrer por Jesus é uma coisa bem diferente de se matar pelo rebanho. Ou por ambições neuróticas e messiânicas.

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Lutero e o Pavor do Pecado

“Não haverá justiça em nós se antes nossa justiça própria não sucumbir e perecer” (Martinho Lutero)

Repórter – Atribuem ao doutor este desabafo: “Que Deus terrível! Oxalá não existisse!”. O doutor teria mesmo dito tal coisa?1

Lutero – Não me lembro quando, não me lembro onde, mas é provável que tenha falado algo assim em uma das minhas crises de pavor, provocada pela noção da santidade absoluta de Deus e pela noção da minha própria pecaminosidade.

Repórter – Seria mais confortável para o doutor se não houvesse Deus?

Lutero – Deus é tão necessário que, se não existisse, teríamos de inventar um.

Repórter – Inventar um Deus menos santo do que o tal “Deus terrível” do seu desabafo?

Lutero – Um Deus semelhante a nós, atraído pelo pecado, sujeito ao pecado, conivente com o pecado, embaçado pelo pecado, vencido pelo pecado e propagandista do pecado, não nos interessaria.

Repórter – Parece-me que o doutor tem uma ideia fixa de pecado. Só agora fez uso dessa palavra seis vezes...

Lutero – Não, eu não tenho nem tive mania de pecado. Exceto naquele tempo em que eu enxergava apenas o pecado e não a graça, considerava somente a severidade e não a bondade de Deus, como São Paulo escreve aos Romanos (11.22).

Repórter – Esse pavor do pecado tem algo a ver com a educação recebida no lar?

Lutero – Talvez. Apanhei muito em casa e na escola. Meus pais trataram-me com dureza, implantando em mim a timidez. Ambos acreditavam que faziam isso com acerto, mas não souberam colocar uma fruta gostosa ao lado da vara.2 Uma vez eu peguei uma simples noz que não era minha e apanhei de minha mãe até sangrar. Em outra ocasião meu pai me castigou fisicamente de maneira tão rude, que fugi dele. Meus pais e meus professores seguiam ao pé da letra o conselho de Salomão: “Castiga o teu filho enquanto há esperança” (Pv 19.18). Mas não equilibravam a pancadaria com o conselho de São Paulo: “Pais, não irritem seus filhos, para que eles não desanimem” (Cl 3.21). Apesar de tudo, desde cedo, eles geraram em mim o tal temor do Senhor, que é “o
princípio da sabedoria” (Pv 9.10) e o instrumento pelo qual “o homem evita o mal” (Pv 16.6).

Repórter – Pavor do pecado e temor do Senhor são a mesma coisa?

Lutero – O temor do Senhor é mais sadio e benéfico do que o pavor do pecado.

Repórter – O pavor do pecado diminuiu no convento agostiniano de Erfurt?

Lutero – Aumentou, e muito! A começar pelo ambiente religioso da cidade. Entre igrejas, conventos, hospitais e outras obras do gênero, havia mais de cem edifícios religiosos. Erfurt era chamada de “a pequena Roma”. Antes de eu me mudar para lá, houve uma reforma nos conventos da Saxônia, liderada por um tal de André Prolês, que não cheguei a conhecer. Nem todos aceitaram a nova disciplina, bem mais severa. Os eremitas “observantes” eram mais comprometidos do que os “conventuais”, mais soltos e numerosos. Meu convento pertencia ao primeiro grupo e tinha como vigário geral o professor João von Staupitz, sucessor de Prolês.

Repórter – O doutor se submeteu à austera disciplina dos “observantes”? 

Lutero – Se jamais houve frade que entrasse no céu por seu espírito fradesco, eu de certo, seria um deles.3

Repórter – Sempre a custo do pavor do pecado?

Lutero – Nem sempre. Depois de muitas lutas, orações, lágrimas, buscas e repetidas leituras da Sagrada Escritura, especialmente das Epístolas de São Paulo, o temor do Senhor desalojou o pavor do pecado, ocupando seu lugar.

Repórter – Deve ter sido uma experiência maravilhosa!

Lutero – Foi sublime demais para descrever. Todo o pavor, o poder, a culpa e a feiura do pecado saíram de sobre os meus ombros e caíram sobre o nosso amado Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Repórter – Como assim?

Lutero – Talvez você não consiga compreender — eu mesmo gastei muito tempo para entender —, mas as boas-novas do evangelho (perdoe-me a redundância, pois evangelho significa boas-novas em grego) dizem que Jesus tomou o nosso lugar para que nós pudéssemos tomar o lugar dele. Em outras palavras, ele, o justo, tornou-se pecador, e nós, os pecadores, tornamo-nos justos. Ele morreu, nós vivemos.

Repórter – O doutor está afirmando que Jesus é pecador? Parece-me uma blasfêmia!

Lutero – Eu não falei que ele é. Afirmei que Cristo tornou-se o supremo e único pecador; ele que era e ainda é a eterna e inexcedível justiça. Todo o pecado do mundo se abateu, com toda a ira e virulência, contra a sua justiça. Foi, literalmente, uma luta de vida ou morte. O pecado lançou-se contra a justiça, a maldição contra a bênção, a morte contra a vida. Tudo caiu sobre Jesus. Nosso amado Senhor e Salvador tornou-se simultaneamente maldito e bendito, vivo e morto, padecente e exultante.4Jesus ocupou o lugar daqueles tiranos e carcereiros que me atormentavam: o pavor do Deus santo, da lei, do pecado, da morte, do inferno. Antes, eu só enxergava o pecado e a severidade de Deus; hoje eu enxergo a graça e a bondade de Deus. Antes, fixava os meus olhos só no “alto e sublime trono” (Is 6.1); agora fixo os meus olhos na rude cruz e no túmulo vazio. Antes, olhava para dentro de mim e encontrava um homem encurvado ou encarquilhado sobre si mesmo; agora, “olho para os céus e vejo o Filho do Homem em pé, à direita de Deus” (At 7.56).

Repórter – Essa mudança radical aconteceu de uma hora para outra?

Lutero – Foi um processo ora consciente, ora inconsciente. Fui subindo os degraus, um por um, até chegar ao topo, de fé em fé.

Repórter – Há mais degraus para subir?

Lutero – Quanto ao alívio que a redenção produz, quanto à certeza da salvação, quanto ao pavor do pecado e da morte, não há mais degraus para subir. Mas, quanto à santidade interior e exterior, quanto à mortificação do pecado, quanto às três virtudes teologais (fé, esperança e amor), há muitos degraus pela frente. Neste corpo e neste mundo nunca chegarei ao topo do mais alto monte. Fui justificado e estou sendo santificado, porém ainda não fui glorificado. Só com a ressurreição do corpo chegarei ao cume do mais alto monte, e não sozinho, mas na companhia de todos aqueles de cujos ombros Deus tirou, em Cristo, o peso do pecado.

Repórter – Se foi um processo, então o doutor não tem como localizar e datar a experiência redentora...

Lutero – Um dos meus alunos da Universidade de Wittenberg, que participava de nossas refeições e conversas à mesa, divulgou a informação de que eu teria descoberto a justificação pela fé no banheiro, isto é, “in cloaca”. Chegou a fantasiar dizendo que, enquanto eu aliviava o ventre, estaria aliviando também a consciência do pavor do pecado. Usei aqui a expressão “in cloaca” no sentido folclórico, no jargão dos monastérios, que quer dizer “na pior”. A verdade é que a descoberta da obra vicária de Cristo em sua profundidade ocorreu quando eu estava triste e deprimido.5 Outros têm dito por aí que a experiência aconteceu na torre do mosteiro agostiniano em Erfurt. Devemos encerrar de uma vez por todas as diferentes conjecturas. Nada disso é importante. Pouco a pouco, na minha cela, na torre do mosteiro, na minha sala de aula em Wittenberg, no meu quarto, na sacristia da Igreja do Castelo ou em minhas andanças de um lugar a outro, a luz do evangelho luziu em meu coração e Cristo foi gerado em mim. Portanto, é impossível datar a bem-aventura da passagem do esforço próprio para o esforço do meu graciosíssimo Deus, que deu o seu Filho unigênito para minha salvação.

Repórter – Alguém o ajudou a caminhar até o topo?

Lutero – Por volta dos meus 22 anos, quando eu era monge em Erfurt, morria de medo de ter esquecido de confessar algum pecado mortal. Então, alguém me recomendou a leitura de um manual escrito pelo teólogo francês João Gérson, morto em 1429. Ali, encontrei que não se deve considerar cada falta da vida monástica como um pecado mortal. Esse e outros livros me fizeram muito bem. Entre os autores que li, cito Agostinho, São Bernardo e João Tauler. O já citado vigário geral da ordem, João von Staupitz, mais tarde meu colega em Wittenberg, me ajudou bastante. Ele me aconselhou a não me preocupar com a predestinação, mas a me apegar às feridas de Cristo e colocar Jesus diante dos meus olhos. A facada final da graça, no entanto, aconteceu quando eu li na Epístola aos Romanos que Deus nos aceita pela fé, porque, como está escrito, “o justo viverá por fé” (Hc 2.4 ; Rm 1.17). Entendi que não haverá justiça em nós se antes nossa justiça própria não sucumbir e perecer. Cheguei à conclusão de que não ressurgiremos se antes não morrermos. Para mim ficou claro que quanto mais alguém se condenar profundamente e engrandecer seus pecados, tanto mais estará apto para a misericórdia e a graça de Deus.6

Repórter – Como o doutor define a justificação pela fé?

Lutero – Quando Deus nos imputa a justiça de Cristo, esta age como um guarda-sol contra o calor da ira divina. A justificação é, antes de tudo, o decreto de absolvição que Deus pronuncia sobre nós, declarando--nos justificados, a despeito de nossa pecaminosidade. Digo mais, a justificação não é a resposta de Deus à nossa justiça, mas a amorosa e perdoadora declaração de Deus de que nós, a despeito do nosso pecado, somos agora absolvidos — quer dizer, declarados justos.7 

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Trecho retirado do livro Conversas com Lutero. Trata-se de uma série de trinta conversas fictícias com o reformador alemão Martinho Lutero (1483-1546). Embora fictício, todo o texto é rigorosamente baseado em fatos históricos.


Notas
1. GREINER, Albert. Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1983. p. 29.
2 LESSA, Vicente Themudo. Lutero. 4 ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960. p. 9. 3. Id. Ibid. p. 32.
4. ALTMANN, Walter. Lutero e libertação. São Paulo: Ática, 1994. p. 68-69.
5. KITTELSON, James M. The breakthrough. Christian History, Minneapolis, MN,
Estados Unidos, v. XI, n. 2, p. 15, 1992.
6. LIENHARD, Marc. Martin Lutero — tempo, vida e mensagem. São Leopoldo: Sinodal,
1998. p. 45-46.
7. GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. São Paulo: Cultura Cristã,
2004. v. 3. p. 57.

 

FONTE: EDITORA ULTIMATO - http://www.ultimato.com.br/conteudo/lutero-e-o-pavor-do-pecado

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As Indulgências, a Reforma Protestante e o Significado do Evangelho

Muitos protestantes atuais ficam surpresos em saber que ainda hoje, em pleno século 21, as indulgências continuam a ser uma crença abraçada oficialmente pela Igreja Católica Romana. Esse dogma e suas implicações práticas desencadearam a Reforma Protestante do século 16. A maneira como isso se deu é uma história fantástica, quase inacreditável, mas que realmente aconteceu.

Uma eleição imperial
No final da Idade Média, os imperadores alemães eram eleitos por um pequeno colégio eleitoral composto de sete integrantes: três arcebispos (de Mainz, Trier e Colônia) e quatro nobres (o conde palatino do Reno, o duque da Saxônia Eleitoral, o margrave de Brandemburgo e o rei da Boêmia). Esse sistema havia sido estabelecido por um decreto datado de 1356. No início do século 16, ao se realizar uma dessas eleições, uma das famílias nobres participantes do colégio eleitoral (os Hohenzollern) teve a ideia de se apossar de um dos arcebispados, o de Mainz ou Mogúncia, que estava vago. O escolhido para tal cargo foi Alberto de Brandemburgo, irmão do referido margrave. Todavia, ele não tinha a idade mínima necessária para isso e assim foi necessário obter uma autorização especial do papa. 

Essa autorização custou elevada soma, pois Leão X precisava de recursos para construir a Catedral de São Pedro. O dinheiro foi obtido mediante empréstimo dos banqueiros Fugger, de Augsburg, a uma exorbitante taxa de juros. Para pagar o empréstimo, o novo arcebispo Alberto recebeu do papa o direito de vender indulgências, sendo que metade dos lucros iria financiar a construção da catedral romana. O arcebispo confiou a tarefa ao melhor vendedor que pôde encontrar -- o dominicano João Tetzel. Um de seus “jingles” promocionais dizia: “Logo que a moeda na caixa ecoa, uma alma do purgatório para o céu voa”. Tetzel cumpriu sua missão de modo eficiente e dramático, impressionando vivamente os seus ouvintes e convencendo-os a adquirir tão valioso bem. Quando ele se aproximou da cidade de Wittemberg, Lutero ficou indignado com esse comércio do perdão de Deus e escreveu suas famosas “Noventa e Cinco Teses” (31/10/1517). Estava iniciada a Reforma Protestante.

Origens de um dogma
As indulgências são consequência de um antigo problema com que se defrontou a Igreja Católica -- o que os cristãos, aqueles que renasceram através do batismo, deviam fazer em relação aos seus pecados. Para lidar com essa questão pastoral, foi articulado ao longo dos séculos o sacramento da penitência. O pecador devia mostrar-se arrependido dos seus pecados (contrição), em seguida informá-los ao sacerdote (confissão) e então receber a declaração do perdão divino (absolvição). Ao mesmo tempo devia fazer obras de satisfação (penitências), demonstrando de modo visível e concreto o seu arrependimento. Todavia, a igreja começou a fazer uma distinção entre as penas eternas e as penas temporais referentes ao pecado. A absolvição perdoava a culpa e livrava da penalidade eterna, mas as penalidades temporais permaneciam. Se não fossem pagas na terra, teriam de sê-lo no purgatório.

Indulgência, palavra que significa “tolerância”, “benevolência”, é o meio através do qual a igreja concede a remissão total ou parcial do castigo temporal devido ao pecado já perdoado. Como aconteceu com outras questões, as indulgências fizeram parte da prática católica antes de serem definidas formalmente como um dogma da igreja. Por exemplo, elas foram muito utilizadas na época das Cruzadas. Além disso, foram objeto de séria reflexão teológica por parte dos escolásticos, como Tomás de Aquino. 

Finalmente, a teoria sobre a qual elas se apoiam foi definida formalmente pelo papa Clemente VI na bula “Unigenitus”, em 1343. Segundo esse documento, existe um tesouro incalculável constituído pelos méritos de Cristo, de Maria e dos santos. Esse tesouro foi confiado à igreja e colocado debaixo da autoridade do papa. Este, e os bispos autorizados por ele, podem aplicar tais méritos, através das indulgências, em benefício dos fiéis, vivos e mortos.

O questionamento protestante
Em suas teses, Lutero se manifestou contra a comercialização das indulgências. Disse ele: “Bem-aventurado é aquele que luta contra a dissoluta e desordenada pregação dos vendedores de perdões” (tese 72). Embora tecnicamente elas não pudessem ser vendidas, visto serem uma dádiva graciosa da igreja aos cristãos, esperava-se que estes ofertassem em troca uma “contribuição” para a construção da catedral. Esse termo é usado muitas vezes nas instruções dadas pelo arcebispo Alberto de Mogúncia. Havia até mesmo uma tabela variável de preços segundo a qual cada um iria contribuir de modo proporcional às suas posses. O fato é que, ao longo dos séculos, com frequência líderes eclesiásticos ambiciosos usaram esse recurso para resolver seus problemas financeiros.

Indo além, Lutero questionou também a doutrina da salvação que estava associada às indulgências. A certa altura ele afirmou: “Aqueles que se julgam seguros da salvação em razão de suas cartas de perdão serão condenados para sempre juntamente com seus mestres” (32). Um pouco adiante, acrescentou: “Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plenária tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de perdão. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da igreja, que são dons de Deus, mesmo sem cartas de perdão” (36-37). Divergindo da ideia tradicional de um tesouro de méritos, ele afirmou: “O verdadeiro tesouro da igreja é o sacrossanto evangelho da glória e da graça de Deus” (62). Em suma, as indulgências eram desnecessárias, porque tudo o que elas pretendiam comunicar já era oferecido gratuitamente por Deus por meio da obra redentora de seu Filho.

“Sola Scriptura”
O fulcro do posicionamento protestante foi o seu princípio basilar da prioridade absoluta das Escrituras em matéria de fé e prática. Partindo do pressuposto de que o Antigo e o Novo Testamento, interpretados segundo critérios saudáveis e equilibrados, contêm a vontade revelada de Deus para a igreja e para os cristãos, os protestantes se viram compelidos a rejeitar toda e qualquer crença que não pudesse ser claramente fundamentada na Palavra de Deus. Isso incluía o purgatório, as indulgências, o tesouro de méritos e muitos outros pontos. À luz do Novo Testamento, eles concluíram que Jesus Cristo e seus apóstolos nunca transmitiram esses ensinos -- eles não faziam parte do “evangelho”, do “kérigma” ou proclamação da igreja primitiva. Os primeiros cristãos não abraçavam tais convicções.

Os partidários da Reforma acabaram chegando a um entendimento da salvação e da vida cristã muito diverso daquele até então predominante. Naquela época, a salvação era vista como um processo que durava a vida inteira (e mesmo além, no purgatório). A vida cristã era entendida como uma peregrinação rumo à salvação, à qual muitos só chegavam no momento da morte. Partindo do conceito de “justificação pela graça mediante a fé somente”, esse processo foi invertido. Justificado pela fé, o crente vive toda a sua vida como um salvo, e não como alguém em busca de salvação. A salvação não está no fim, mas no começo da vida cristã. O que ocorre ao longo da vida é um processo, que pode ser bastante árduo, em busca da santificação.

Conclusão
A moderna Igreja Católica continua a crer nas indulgências e a ensiná-las por meio do seu magistério. Eventos como os “anos santos” e as eleições papais estão associados a indulgências especiais. Existem diversos outros meios pelos quais os católicos podem obter esse benefício da igreja. O aspecto pecuniário que deu má fama a essa prática parece que há muito foi afastado. O que os católicos precisam considerar é se tal preceito é não só um ensino da igreja, mas um ensino de Cristo e seus primeiros seguidores. Lutero achava que a igreja somente tinha o direito de cancelar as sanções impostas aos fiéis por ela mesma (penas canônicas), e não quaisquer penalidades impostas por Deus. Destas existe libertação total por meio da fé em Jesus Cristo: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

FONTE: EDITORA ULTIMATO - http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/318/as-indulgencias-a-reforma-protestante-e-o-significado-do-evangelho

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A Conversão de Micônio, Historiador da Reforma

Em meus livros sobre a participação feminina na história do Cristianismo, gosto de colocar textos da época. São narrações através das quais o leitor pode ouvir as vozes do passado. 
No livro História da Reforma do XVI século, de J. H. Merle D’Aubigné, no 1º volume, nas páginas 244 a 247, encontra-se a mais linda história de conversão que já tenho lido. Para mim, descobrir essa narração foi algo inspirador e relevante e a tenho citado em mensagens e palestras. 
Esse acontecimento, ocorrido em um período tão difícil quanto o que precedeu a Reforma, confirma que a salvação é pela graça de Deus e unicamente por meio da fé pessoal em Jesus Cristo. 
Essa história se passou em Annaberg, cidade alemã, quando Tetzel, frade dominicano e grande comissário das indulgências, percorria a cidade vendendo o perdão dos pecados. Entre aqueles que o ouviram encontrava-se um jovem estudante. 
Micônio havia recebido uma educação cristã e seu pai lhe ensinara a importância da oração, acrescentando que todas as coisas são dádivas gratuitas de Deus e que o sangue de Cristo era o único resgate dos pecados de todo o mundo: “ainda quando não houvesse mais de três homens que devessem ser salvos pelo sangue de Cristo, crê, filho meu, e crê com toda a segurança, que tu és um desses três”. 
A respeito da venda de indulgências que ocorria na Alemanha, seu pai lhe dizia que essas indulgências eram redes de pescar dinheiro e serviam apenas para enganar os simples porque o perdão dos pecados e a vida eterna não se compravam.
Aos treze anos, Frederico Micônio, foi enviado à escola de Annaberg, para concluir seus estudos. Pouco depois, Tetzel chegou também àquela cidade e lá permaneceu por dois anos. Ele apregoava que não havia outro meio de alcançar a vida eterna senão pelas obras, mas isso era impossível ao homem, portanto, devia comprá-la ao pontífice romano.
Antes de deixar a cidade, Tezel tornou-se mais contundente e ameaçador, dizendo que logo fecharia a porta do céu e apagaria a luz deste sol de graça. Portanto, ninguém deveria perder o dia da salvação, o tempo favorável. Por fim, prometeu que iria distribuir as indulgências aos pobres gratuitamente e pelo amor de Deus.
O jovem Micônio sentiu ardente desejo de aproveitar aquela oferta, então, dirigiu-se aos comissários e lhes disse: “Eu sou um pobre pecador, e tenho necessidade do perdão gratuito”.
Ao que os comissários responderam: “Só aqueles que estendem as mãos piedosas à igreja, queremos dizer só aqueles que dão dinheiro, são os que podem ter parte nos merecimentos de Cristo”.
Micônio questionou sobre as promessas do dom gratuito, mas os agentes de Tezel responderam que ele deveria pagar pela indulgência.
Após muita insistência e fracassando em seu apelo, Micônio afirmou, indignado: “Eu não quero indulgências compradas, se quisesse comprá-las, não teria de fazer mais do que vender um dos meus livros de escola. Quero um perdão gratuito, e só pelo amor de Deus. Vós prestareis contas a Deus de haver deixado, por quatro moedinhas, escapar a salvação de uma alma”.
O jovem retirou-se desconsolado, porém, o Espírito Santo tocou seu coração e, entre lágrimas, orou ao Senhor: “Meu Deus! Já que os homens me têm negado o perdão dos pecados, porque me faltava dinheiro para pagá-lo. Tu, Senhor, tem piedade de mim, e perdoa minhas culpas por pura graça”.
Micônio relatou que não soube descrever o que experimentou, mas sentiu sua natureza mudada, convertida, transformada e aquilo que antes o agradava, tornou-se para ele um objeto de aversão. Viver com Deus e agradar-lhe era seu mais ardente e único desejo.
Posteriormente, Frederico Micônio tornou-se um reformador e historiador da Reforma.
Essa é a verdadeira conversão, quando o homem velho é sepultado com sua natureza pecaminosa e sua vida interior e, consequentemente, seu comportamento exterior também são transformados por Deus. Portanto, não importa a época, a raça, o gênero ou qualquer outra condição, basta simplesmente que o ser humano reconheça sua necessidade da graça divina e entenda que a certeza de salvação pode existir para todo aquele que crê.
A regeneração, o nascer de novo, equivale a nascer de Deus e não é resultado de obra humana, mas é uma imputação divina. Também não é um ato contínuo, mas é algo que ocorre de uma vez por todas. A regeneração espiritual retrata um ser morto e insuficiente sendo vivificado. 
Meu desejo é que todos os que se consideram cristãos sejam também regenerados e tornem-se novas criaturas, salvas por Deus e herdeiras de Suas promessas.
Não por méritos de atos de justiça que houvéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e da renovação realizados pelo Espírito Santo, que ele derramou amplamente sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador; para que, justificados pela sua graça, fossemos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna. (Tito 3.5-7)

Rute Salviano é licenciada em Estudos Sociais, bacharel em Teologia (especialização em Educação Cristã), mestre em Teologia (concentração em História Eclesiástica), pós-graduada em História do Cristianismo pela UNIMEP e autora de Uma Voz Feminina na Reforma, Uma Voz Feminina Calada Pela Inquisição e Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, publicados pela Editora Hagnos.

FONTE: EDITORA ULTIMATO - http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-conversao-de-miconio-historiador-da-reforma

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A Soteriologia dos Reformadores

Sem dúvida a data de 31 de outubro de 1517 é de grande transcendência na história universal. A Reforma exaltou verdades bíblicas que formam o sustentáculo de nossa evangelização. De uma maneira e outra, todos os cristãos evangélicos são herdeiros da Reforma. Embora tenha sido um movimento de profundas repercussões culturais, sociais e políticas, é de bom alvitre agarrarmo-nos aos fundamentos teológicos desta mensagem e, de maneira particular, à soteriologia* dos reformadores. Para cumprir esse propósito, recorreremos a quatro grandes postulados da Reforma: Sola Gratia, Solo Christus, Sola Fide e Sola Scriptura. 

Só a graça 
Ensinam os reformadores que o pecador é justificado unicamente pela graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo. Neste caso, a graça é o favor divino que o homem não merece, mas que, em sua soberania e bondade, Deus quer dar-lhe. A salvação é obra de Deus, não do homem. Paulo diz: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto [a salvação] não vem de vós, é dom de Deus; não [vem] de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9). Em outra Epístola, o apóstolo explica: “Se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6). 

O homem estende a mão vazia para receber, não a mão cheia para oferecer. Não tem nada a oferecer em troca de sua salvação. Tampouco pode cooperar com a graça divina para salvar-se. Está morto em seus delitos e pecados. Somente se dispõe a receber o favor de Deus. 
O conceito de só pela graça é um golpe mui severo ao orgulho humano. Aqui não há lugar para a auto-suficiência, nem para a arrogância do que pretende salvar-se a si mesmo e a outros, mesmo por meio de esforços que aos olhos da sociedade parecem mui nobres e heróicos. 

Deus é sempre ‘o Deus de toda a graça’(1 Pe 5.10). A salvação sempre foi, é e sempre será pela graça. Mas esta graça vem em plenitude na pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.17). Cristo é o dom inefável de Deus ao mundo. O homem pode salvar-se em Cristo, não à parte de Cristo. 

Só Cristo 
A mensagem dos reformadores era cristológica e cristocêntrica. Assim deve ser a nossa. Jesus declarou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). E, segundo o apóstolo Pedro, “não há salvação em nenhum outro, porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12). 

Compete-nos escutar de novo estas declarações que se opõem radicalmente a todo intento sincretista ou universalista. Gostemos ou não, o evangelho neotestamentário é inclusivo e exclusivo. Inclui todos que recebem a Jesus Cristo como único mediador entre Deus e os homens, e exclui todos que resistem à graça de Deus. Não nos cabe incluir o que Deus não incluiu, nem excluir o que Ele não excluiu. 

Só Cristo salva. Mas, qual Cristo? Definitivamente não se trata aqui do Cristo dos dogmas de feitura puramente humana, nem do Cristo da imaginação antiga e moderna, nem do Cristo do folclore latino-americano, nem do Cristo superstar das sociedades opulentas do norte, nem do Cristo dos poderosos interesses econômico-sociais em nosso continente, nem do Cristo dos ideólogos de última hora. O Cristo que salva é senão aquele que é revelado nas Escrituras. 
O Cristo revelado nas Escrituras é o Cristo Deus — o Logos eterno, associado eternamente com o Pai e com o Espírito, criador e sustentador dos céus e da terra, o Senhor da vida e da história, o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o “que é, que era e que há de vir”, o Todo-poderoso Senhor. 

O Cristo revelado nas Escrituras é o Cristo histórico — manifestado no tempo e no espaço, em data precisa do calendário de Deus, na plenitude da história humana, no contexto de uma geografia, de um povo, de uma cultura, de uma sociedade. 

O Cristo revelado nas Escrituras é o Cristo humano — engendrado pelo Espírito, concebido pela virgem Maria, participante de carne e sangue, “feito carne”, identificado plenamente com a humanidade. 

O Cristo revelado nas Escrituras é o Cristo profeta — o arauto de Deus Pai, intérprete da Divindade, revelador da vontade divina para seu povo e para toda a humanidade. 
O Cristo revelado nas Escrituras é o Cristo sacerdote — o que está sentado à direita da Majestade nas alturas e “também pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25). 

O Cristo revelado nas Escrituras é o Cristo rei, que está para vir — o Juiz de vivos e de mortos, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o Cristo da renovação total. 

Só a fé 
A grande descoberta do frade Martin Lutero nas Escrituras foi que “o justo viverá por fé” (Rm 1.17). Essa verdade bíblica chegou a ser um grito de batalha na Reforma. 

A fé é a mão que recebe a dádiva de Deus em Jesus Cristo. Certamente para o evangelista João, receber a Cristo parece ser um equivalente de crer nele (Jo 1.12). Por meio da fé fazemos nossos os benefícios de Cristo crucificado e ressuscitado. É nesses benefícios que descansa nossa segurança eterna de salvação. 

A fé mediante a qual somos justificados não é cega, não é mera credulidade. Tampouco é a fé um mero assentimento à verdade revelada. É muito mais que um mero exercício intelectual. Ter fé é confiar, é abandonar-se nas mãos de Jesus Cristo, reconhecendo a enormidade de nossa culpa e a totalidade de nossa incapacidade para libertar-nos por nós mesmos do pecado. É admitir que os méritos humanos são inúteis para fins de justificação. É lançar mão do valor infinito da pessoa e obra do Filho de Deus. Ter fé em Jesus Cristo é deixar-se salvar por Ele. 

A fé implica também obediência. Quando o homem crê que o Evangelho é a verdade, sente-se na obrigação de obedecê-lo. Segundo a doutrina da Reforma, o pecador é justificado só pela fé, mas a fé que justifica não permanece só. Não é uma fé estéril, muito menos morta. O ensino de Tiago (2.14-26) se harmoniza plenamente com o ensino de Paulo, o qual afirma que não somos salvos por obras, mas sim, para obras que Deus “de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Estas boas obras são o fruto da salvação, não a causa dela. 

Crer em Jesus Cristo significa, além do mais, entrar em sério compromisso com Ele, com sua Igreja e com a sociedade. Não aceitamos Jesus Cristo para evadir nossas responsabilidades morais e viver como nos agrada, depois de haver adquirido uma apólice de seguro para a eternidade. No Evangelho há reclamos de caráter ético. 

Jesus teve o cuidado de advertir as multidões sobre as dificuldades do caminho que Ele lhes propunha. Não guardou silêncio sobre as exigências do discipulado. Ninguém poderia queixar-se de que Ele lhes enganara com a oferta de uma “graça barata”. Seu interesse estava na qualidade, não na quantidade de seus seguidores. 

Só a Escritura 
Aceitaram os paladinos da Reforma a autoridade suprema das Escrituras, não só no que diz respeito à doutrina da justificação pela fé. Eles determinaram submeter sua fé e sua vida ao ditame final do cânon bíblico, e não a outra autoridade, fosse a do magistério eclesiástico, ou a da razão natural, ou a dos impulsos do coração. Aceitaram e proclamaram as Escrituras como sua norma objetiva e final. Foi fundamentalmente por essa declaração que os reformadores e a Igreja oficial daqueles tempos dividiram seus caminhos. 

Nessa transcendental decisão, os reformadores não fizeram mais do que continuar uma longa tradição que vem desde os tempos do Velho Testamento e desde os dias de Cristo e seus apóstolos. Os profetas apelaram para a lei escrita como sua autoridade final. Cristo autenticou seu ministério ante o povo com a lei de Moisés, os profetas e os Salmos (Lc 24.44). Os apóstolos também se apoiaram na autoridade do Antigo Testamento. A Igreja antiga aceitou ambos os Testamentos e teve assim um cânon mais extenso ao qual apelar para suas decisões de fé e prática. Os reformadores fizeram que o “Assim diz o Senhor” e o “Está escrito” ressonassem poderosamente no âmbito da cristandade ocidental. 

Através dos séculos o princípio da Sola Scriptura tem sido ameaçado e desafiado pela razão natural, pelo sentimentalismo pietista, pela pressão eclesial (católica e protestante), ou pela presunção de líderes que se creem superdotados para impor ao povo de Deus seu sistema privado de interpretação. 

Os reformadores advogaram não a livre interpretação, mas o livre exame das Escrituras. O sacerdócio universal dos crentes — outra das grandes doutrinas exaltadas pela Reforma — não autoriza a ninguém torcer e retorcer o texto bíblico. 

Se não acatarmos a norma objetiva das Escrituras, se não nos submetermos ao senhorio de Cristo, se não estivermos em sintonia com o Espírito Santo, se nos distanciarmos da comunidade da fé — seremos presa fácil do subjetivismo, ou do relativismo, ou poderemos cair ingenuamente na trama de uma ideologia, não importa de que cor seja ela. 

*Nota da redação: Soteriologia é o ramo da teologia que trata da salvação, da obra de Cristo. Tratado teológico que tem como objeto a redenção do homem.

Texto adaptado a partir da mensagem de abertura do Segundo Congresso Latino-americano de Evangelização — Clade II — no dia 31 de outubro de 1979, por ocasião do 462º aniversário da Reforma Protestante. A mensagem na íntegra foi publicada na edição de março de 1980 e esta adaptação na edição 255 da revista Ultimato.

Emilio Antonio Nuñez Castañeda (1923 – 2015) é um dos mais conhecidos teólogos da América Latina. Nascido em El Salvador, fundou e foi reitor do Seminario Teológico Centroamericano, na Guatemala, e também um dos fundadores da Fraternidade Teológica Latino-americana – FTL.

 

FONTE: EDITORA ULTIMATO - http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-soteriologia-dos-reformadores-sola-gratia-solo-christus-sola-fide-e-sola-scriptura

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O Evangelho Pertence a Uma Denominação?

Martinho Lutero jamais pretendeu tornar-se o centro das atenções. Era um estudante de direito atormentado por uma angústia. Tinha consciência de que não conseguia ser o que Deus queria que ele fosse. Sabia-se endividado diante de Deus. Em 1505 ele entrou num convento com hábitos rigorosos para obter a certeza do perdão divino. Essa recomendação da igreja medieval dava a todos que a buscavam. Assim, abdicou ao mundo e submeteu-se aos exercícios espirituais com extremo rigor. No entanto, isso não aliviou sua angústia. Pelo contrário, a potenciou. Seu superior, não sabendo mais o que lhe recomendar, ordenou que se dedicasse ao estudo da Bíblia. Assim, em 1512, Lutero tornou-se professor de Bíblia numa universidade provinciana onde começou a dar aulas sobre os Salmos.

No preparo dessas aulas Lutero foi surpreendido por uma afirmação do Salmo 31: “Em ti, Senhor, me refugio; nunca permitas que eu seja humilhado; livra-me pela tua justiça”. Percebeu que o salmista não clamava “livra-me pela minha justiça”, mas que ele pedia a Deus “livra-me pela tua justiça”. Começou a se dar conta que a libertação da inclinação para o mal não resultava da justiça que nós produzimos. Descobriu que ela procede da justiça que Deus oferece gratuitamente por meio de Jesus Cristo. Quase 40 anos mais tarde o reformador recordaria o impacto deste aprendizado: “Dia e noite eu desejava entender Paulo em Romanos; noite e dia ponderei até perceber a conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que o ‘justo vive pela fé’. Então eu entendi que a justiça de Deus é aquela pela qual Deus nos justifica na graça e pura misericórdia. Eu me senti completamente renascido e acolhido pelas portas abertas no paraíso. Toda a Escritura adquiriu um novo significado: se antes (a menção da) ‘justiça de Deus' me enchia de ódio, agora tornou-se indescritivelmente doce e amável. Esta afirmação de Paulo tornou-se para mim num portal do paraíso.”

Só em 1517 Lutero viria a público com este seu aprendizado pessoal. E ele o fez motivado por uma situação pastoral, pois encontrara um membro da igreja alcoolizado cuja confissão havia ouvido poucos dias antes. Quando Lutero questionou seu comportamento, o bêbado justificou-se, apresentando a indulgência, uma certidão emitida pela igreja que garantia perdão dos pecados a quem a comprava. Indignado, Lutero redigiu então as “95 Teses” sobre o verdadeiro arrependimento. Elas eram um roteiro para debater o assunto em sala de aula. Como de costume afixou-as na porta da igreja que funcionava como edital de avisos da faculdade. De lá as “95 Teses” viralizaram. Viraram panfleto impresso aos milhares. Em poucas semanas seriam conhecidas por toda Europa, de Roma a Londres, de Madrid e Paris a Praga.

É verdade que depois outros interesses se conectaram e, não poucas vezes, sobrepujaram esse propósito de restaurar a fé na boa notícia da salvação graciosa por meio de Jesus. Ainda que a Reforma tenha impactado a estrutura eclesiástica, interferido na política e na economia da Europa, não se pode esquecer que ela se originou desta resposta à pergunta pela certeza da salvação que afligia a muitos. Apenas esta aflição generalizada explica o impacto do testemunho da Reforma. 

Por causa desse foco, nem Lutero nem qualquer outra liderança da Reforma – Zwinglio, Bucer, Menon, Calvino, etc –, postularam direitos autorais pela redescoberta da graça. Entenderam-se como meros instrumentos pelos quais Deus estava restaurando sua igreja. Lutero manifestou-se explicitamente sobre isso no prefácio da primeira edição alemã de suas obras: “Antes de tudo peço que não mencionem o meu nome e nem se chamem de luteranos, mas de cristãos. Quem é Lutero? A doutrina não é minha. Também não fui crucificado por ninguém. Em 1Coríntios 1 São Paulo não tolerou que se chamasse os cristãos de paulinos ou petrinos, mas (deveriam chamar-se apenas) cristãos. Como seria possível que filhos de Cristo fossem chamados pelo meu desgraçado nome, eu saco de vermes pobre e fedorento. Não seja assim, caros amigos, apaguemos todos os nomes partidários e sejamos (apenas) de Cristo, cujos ensinamentos temos. … Os cristãos não creem em Lutero, mas no próprio Cristo; (assim) abram mão de Lutero; apegue-se à palavra. [...] Não sou, nem quero ser o mestre de ninguém. Somente Cristo é nosso mestre.”

Ao aplicar a admoestação de Paulo à igreja em Corinto ao seu tempo, Lutero desafia também a nós a bebermos da fonte do evangelho e a perseverarmos na “obediência da fé” em Jesus Cristo (Rm 1.5 e 16.26). Só quem deixar de lado o sectarismo denominacional poderá anunciar a esperança em Cristo a quem vive na busca ansiosa pelo que dá sentido à vida. Assim lembramos o testemunho dos reformadores para “… livrar-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e correr com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé.” (Hb 12.1-2).

Martin Weingaertner, nascido em Santa Catarina (1949), é professor e diretor da Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba (FATEV) e editor do devocionário “Orando em Família”. Seu casamento com Ursula foi abençoado com 5 filhos e 8 netos.

FONTE: EDITORA ULTIMATO - http://www.ultimato.com.br/conteudo/o-evangelho-pertence-a-uma-denominacao

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Hoje...

Espiritualidade cristã é para além do domingo - ou não é?

 

" Hoje " (Letra de Gerson Borges e Música de Paulo Nazareth) 
Numa versão acústica. Vídeo dirigido por Rapha Souza.
Gravado no Estúdio BuenaOnda/SP.
(Nossos agradecimentos ao mano Claudio Marttos)

Hoje, por que só tenho hoje

Hoje, aqui, agora, o já

Hoje eu vou cuidar do meu hoje

E do amanhã eu sei que Deus cuidará

Vídeo relacionado

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É Tão Simples...

Com músicos excepcionais da MPB como
Pantico Rocha (Lenine, Boca Livre) , Nema Antunes (Ivan Lins) Humberto Mirabelli e Fernando Merlino.

Gerson Borges lança "Quero aprender a orar"
Em show realizado em Maio de 2014 no Municipal de NIterói, RJ 

Vídeo dirigido por Rafael Costa , produzido por Daniel Brito para GB/M Realizações.

 

 

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